“Pense você no parto como um evento sexual.”

Essa frase soa estranha para você? Se sim, a culpa não é sua. Somos de uma cultura que passou o último século retratando o parto como um evento médico, asséptico, doloroso e emergencial. É um evento de “sofrimento” que precisa ser “controlado” em um hospital.

Mas e se eu te dissesse que, do ponto de vista fisiológico, hormonal e instintivo, o seu post está absolutamente correto?

O parto é, sim, um evento da sexualidade. E entender isso é a chave para desbloquear um parto mais fácil, mais rápido e mais positivo. Vamos despir o nascimento de preconceitos e vesti-lo de ciência. O que seu corpo precisa para parir é muito parecido com o que ele precisa para ter um orgasmo.

 O Hormônio : A Ocitocina é a Protagonista

Vamos direto aos fatos, que são os mesmos do seu post. O parto é regido por um coquetel de hormônios. O protagonista absoluto desse coquetel é a Ocitocina.

Você provavelmente conhece a ocitocina como o “hormônio do amor”. É o hormônio liberado em abundância durante o sexo, o orgasmo, o toque, o abraço e a amamentação. É o hormônio da conexão e do prazer.

E adivinhe? É o mesmo hormônio que provoca as contrações rítmicas e poderosas do trabalho de parto.

Quando o corpo libera ocitocina, ele também libera Endorfinas, que são os analgésicos naturais do nosso corpo, criando uma sensação de euforia e diminuindo a percepção da dor.

Seu post descreveu perfeitamente a manifestação física desse coquetel: “Suor, transpiração, arrepios, pele quente, secreção, intensidade, ápice.” Essa é a descrição de um corpo inundado por ocitocina e endorfinas, seja no sexo ou no parto.

 O Dilema do Cérebro: O Instinto Precisa Desligar a Razão

Aqui chegamos ao ponto central do seu texto: “Quando você está bem consigo, tem liberdade para transbordar todo o instinto que ali se encontra, recebe apoio, segurança…”

Por que isso é tão crucial? Porque o parto não acontece no seu cérebro racional (o neocórtex). Ele acontece no seu cérebro primitivo, instintivo (o sistema límbico).

• O Neocórtex: É o cérebro que fala, calcula, se preocupa, responde perguntas (“Qual seu CPF?”, “Já comeu hoje?”, “Tem certeza que não quer analgesia?”).

• O Sistema Límbico: É o cérebro que sente, que reage, que geme, que se move instintivamente. É o cérebro que sabe parir.

Agora, volte à analogia sexual. O que acontece se, no meio de um momento íntimo, alguém acender a luz, entrar no quarto, começar a fazer perguntas e te disser para “fazer mais força”? O momento acaba. A ocitocina desaparece e dá lugar à Adrenalina (o hormônio do “luta ou fuga”).

Adrenalina é a inimiga número um da ocitocina.

No parto, é exatamente igual. Se a mulher se sente observada, julgada, com medo, com frio, ou se é forçada a pensar racionalmente, seu neocórtex é ativado. A adrenalina sobe, e o parto para. As contrações diminuem, o processo “não evolui”.

O que o seu post chama de “liberdade para transbordar” é o estado de “partolândia”: aquele momento em que a mulher desliga o racional e entra em seu próprio mundo. Ela precisa se sentir segura o suficiente para “ser selvagem”, como falamos em posts anteriores.

 O Ambiente Ideal para o Parto (e para o Sexo)

Se o parto é um evento da sexualidade, ele precisa das mesmas condições que ela. O famoso obstetra francês Michel Odent resume isso perfeitamente. As condições ideais para um parto fácil são as mesmas que uma mulher precisa para se sentir à vontade com seu parceiro:

1. Privacidade: A sensação de não estar sendo observada. Luzes baixas, poucas pessoas, silêncio.

2. Segurança: Sentir-se protegida. É aqui que entra o “apoio” que você citou. O acompanhante (como na foto) e a equipe (como nós, enfermeiras obstetras) não são protagonistas; somos guardiões do ambiente. Nossa presença deve ser sentida, mas não invasiva.

3. Calor: O frio libera adrenalina. O calor relaxa e promove a ocitocina.

4. Liberdade: Liberdade de movimento, de vocalizar, de comer, de beber.

Quando você vê a foto do post – um trabalho de parto em casa, com o apoio do companheiro, em um ambiente íntimo – você vê todas essas condições sendo preenchidas. O resultado é um corpo livre para liberar os “hormônios do prazer e do amor” que facilitam o processo.

 Conclusão: O Parto não é Sofrimento, é Intensidade

Sua escolha de palavras foi perfeita: “intensidade, ápice.”

Nossa cultura confundiu “intensidade” com “sofrimento”. O trabalho de parto é intenso? Absolutamente. É o “ápice” da capacidade fisiológica do corpo, assim como um orgasmo é um ápice de prazer. Mas essa intensidade não precisa ser sinônimo de um sofrimento que precisa de resgate.

Quando uma mulher tem apoio, segurança e liberdade para transbordar seu instinto, ela usa a intensidade a seu favor. Ela trabalha com seu corpo, não contra ele.

É exatamente essa a visão que nós, profissionais que acreditamos na fisiologia, devemos compartilhar. O parto é um ato de amor, do início ao fim.

Você já tinha pensado no parto por essa ótica? Refletir sobre isso muda a forma como você enxerga o seu próprio plano de parto? Compartilhe sua opinião nos comentários!

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