trabalho parto

Quando Não Fazer Nada é a Melhor Assistência ao Parto

A Essência da Nossa Profissão

Na nossa formação como profissionais de saúde, somos treinados para “fazer”. Aprendemos a diagnosticar, a intervir, a aplicar técnicas e a executar procedimentos. Li há pouco, no entanto, sobre os conhecimentos não técnicos que deveríamos levar sempre nos trabalhos de parto, e isso me fez refletir sobre a essência da nossa profissão. A verdade é que raramente somos ensinados sobre a habilidade mais difícil de todas: a de saber quando não fazer absolutamente nada.

Temos uma tendência, quase um vício profissional, de querer gerenciar o processo. Queremos medir, acelerar e controlar. Mas o parto, em sua essência, não é um procedimento médico; é um evento fisiológico, instintivo e, por que não dizer, selvagem.

A grande questão que assombra muitas salas de parto é a confusão entre “segurança” e “ação”. E é hora de dizer em voz alta: segurança não está relacionada em estar sempre fazendo algo. Muitas vezes, a segurança está exatamente no oposto: em proteger o processo natural das nossas próprias mãos ansiosas.

A Falsa Segurança do “Fazer”

Quando uma mulher em trabalho de parto entra em uma instituição, ela é imediatamente inserida em um protocolo. O “fazer” começa: acesso venoso, monitoramento contínuo, exames de toque em horários pré-determinados. Cada “passo” é visto como uma garantia de segurança. Mas será mesmo?

O parto é algo natural, e exige que seja seguro! Mas essa segurança é, em primeiro lugar, a segurança hormonal e emocional. O corpo da mulher sabe parir. Ele foi desenhado para isso. Ele possui um coquetel hormonal perfeito de ocitocina (hormônio do amor e das contrações) e endorfinas (analgésicos naturais) que só funciona em um ambiente de confiança, privacidade e calma.

Cada intervenção desnecessária, cada pergunta inoportuna, cada luz acesa sem motivo, age como um “freio” nesse processo. O “fazer” constante quebra o instinto, ativa o neocórtex (o cérebro racional) e libera adrenalina (hormônio do estresse e da “luta ou fuga”), que é o antagonista direto da ocitocina. O resultado? O parto “não progride”, e a culpa é colocada na mulher, nunca no ambiente que criamos para ela.

As Perguntas que Realmente Importam

A verdadeira arte da obstetrícia, a habilidade não técnica, reside em um conjunto de perguntas que deveríamos nos fazer a cada minuto antes de agir.

1. O Exame de Toque: É Realmente Necessário?

A pergunta mais frequente na assistência ao parto é: “Quando realizar o exame de toque?” Talvez a pergunta devesse ser: “Por que realizar o exame de toque?”

Vivemos sob a “ditadura da dilatação”, como se um número em centímetros fosse um atestado de progresso. O toque vaginal frequente não acelera o parto. Pelo contrário: ele pode aumentar o risco de infecção, gerar ansiedade extrema na mulher (“só 4cm em 5 horas?!”) e quebrar sua concentração.

A habilidade não técnica é saber ler o parto na mulher, e não no colo do útero. O seu som, a sua postura, a forma como ela lida com a contração, a cor do seu rosto, a linha púrpura (linha de Michaelis)… Tudo isso nos diz mais sobre a fase do parto do que um dedo invasivo. “Não fazer” o toque é, muitas vezes, a decisão mais sábia para proteger a fisiologia.

2. Quando Tocar? Quando Sugerir Exercícios?

“Quando colocar a mão na paciente?” “Quando sugerir exercícios?” A resposta mais honesta é: quando ela pedir, ou quando seu corpo der sinais claros de que precisa de ajuda.

Às vezes, a mulher encontra uma posição “estranha” e lá fica por uma hora, imóvel, apenas respirando. O impulso de “fazer” é dizer: “Vamos lá, vamos mudar de posição! Vamos para a bola!” Mas e se aquela posição for exatamente o que o bebê precisa para fazer a rotação final?

A habilidade não técnica é a presença silenciosa. É sentar no canto do quarto, apenas observando. É oferecer uma massagem, mas saber retirar a mão se ela demonstrar desconforto. É confiar que o corpo dela sabe o que fazer, e o nosso papel não é o de diretor de cena, mas o de guardião do ambiente.

O Parto é Instinto. Deixe Ser Selvagem.

Chegamos ao ponto crucial. O parto é instintivo! Somos instinto. Para que o parto aconteça em sua plenitude, a mulher precisa se desconectar do racional e acessar seu cérebro mais primitivo, o reptiliano. Ela precisa de permissão para “se soltar”.

O que significa “deixar ser selvagem”?

Significa deixar a mulher se movimentar livremente, sem fios. Significa permitir que ela vocalize (grite, cante, geme) sem ser julgada ou silenciada. Significa criar um ambiente de penumbra, quente e silencioso. Significa, acima de tudo, que ela se sinta segura o suficiente para não ter que “pensar” ou “performar”.

Quando o profissional entende isso, ele para de “fazer” e começa a “ser”. Ele se torna um guardião daquele espaço sagrado. Sua ação principal é a vigilância (ouvir o bebê, monitorar os sinais vitais da mãe) feita da forma mais discreta e respeitosa possível. A verdadeira segurança é saber identificar o raro momento em que o fisiológico se torna patológico e, só então, agir com técnica.

Conclusão: A Coragem de Confiar

“Não fazer nada” no parto não é negligência. Pelo contrário: é uma ação deliberada, consciente e que exige um nível de confiança e conhecimento muito superior ao de simplesmente seguir um protocolo.

É a habilidade de estar presente, de olhos e ouvidos atentos, confiando no processo. É entender que nosso papel não é “fazer o parto”, pois ninguém “faz” um parto. A mulher pare, o bebê nasce. Nosso papel é zelar para que ela tenha o ambiente mais seguro e respeitoso para que esse instinto flua.

Da próxima vez que estivermos em um trabalho de parto, que nossa primeira ação seja a inação. Que nossa primeira intervenção seja a paciência.

Deixe ser natural, deixe ser selvagem.

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